Gê da Viola e o ecletismo poético-musical do CD Porteira de Vara
(ou “A pop-erudição harmoniosa de Geraldo Ramon”)
“Ai do país que abandona as raízes da cultura” – assim sentenciou, com sabedoria, o saudoso escritor e crítico de arte cearense Antônio Girão Barroso, asseverando a vital necessidade da preservação contínua dos expoentes mais genuínos da tradição cultural da nossa pátria, aqueles valores que estão arraigados na alma do nosso povo, encantando as fronteiras do íntimo e dando lenitivo aos nossos corações.
Certamente é assim que também pensa, aqui no Mato Grosso do Sul, o nosso Gê da Viola, que vem cultuando há tempos, com axiomática maestria, este que – popularizado na Europa no século XIV – foi possivelmente o primeiro instrumento de corda que o nosso país conheceu. Viola caipira, viola de pinho, viola de 10, viola sertaneja, são algumas denominações desta suprema cabocla melodiosa que enleva cada palmo do chão sertanejo. Viola da guarânia, do rasqueado, da polca, da rancheira e da verde cana; viola do recortado, viola meia-regra, de arame, regra inteira; viola da mazurca e da querumana, do xote, lundu e do valseado; viola quatro pontos, viola de cocho, relíquia campesina, feitio de menina, donzela choradeira, moleca peregrina, rainha brasileira.
Talentoso violeiro, abençoado pelas musas do parnaso, o nosso artista – outrossim, sabem-no os que o conhecem – é versátil poeta, letrista e compositor, o que lhe outorga passaporte para transitar altaneiro pelas paragens feéricas da música e da literatura.
E é com esta sensibilidade que a poesia, os ressumbros filosóficos, as raízes singelas da beleza (e outras dádivas da essência) consoam nas cordas da viola [e das fontes vocais] de Geraldo Ramon (Gê da Viola) no seu novo CD – “Porteira de Vara” – que traz 15 composições autorais. Temos neste disco uma produção multímoda, uma agradável diversificação de temas e ritmos, músicas que vão desde o “pagode caipira”, passando pela clássica valsa e chegando à polca, xote, marcha e guarânias regionais, além dos folclóricos cururu e toada.
De par com a plangente “viola caipira”, parceira constante da inconsútil manifestação poético-musical do artista, este trabalho exibe acompanhamentos bem dosados de violões, contrabaixo, percussão e algum instrumento de sopro. Temos aindaback vocals em algumas faixas, tudo condensando eloqüentes sonoridades que aguçam os sentidos dos ouvintes.
Contando com a presença vocal de Adir Guimarães, o CD Porteira de Vara preserva a idéia de resgatar o que há de autêntica brasilidade na nossa música-caipira-raiz, porém com uma roupagem nova, letras bem resolvidas, mensagens escorreitas, sempre buscando evocar a bela tradição e a originalidade.
Homenageando um dos maiores ícones da viola sertaneja de todos os tempos, Gê/raldo abre este seu compact disc com a belíssima composição “Alô, Tião Carreiro” e – com trato cordial e reverencioso – exprime: “Amigo Tião Carreiro / De onde você está / Preste atenção, companheiro / Que um pagode eu vou mandar. / Este pagode é meu, / mas o estilo é seu / O dom que Deus lhe deu / Ninguém nunca vai igualar! (...)”.
Na faixa nº 2, “Paixão de Caboclo”, o autor emoldura, em estrofes bem rimadas e ritmo contagiante, a cândida expressão do amor-aconchego que coroa a suada lida dos que habitam a rotina do campo: “(...) Eu vou chegando, a ansiedade é louca, / lhe beijo a boca, favo de mel. / Sinto seu cheiro, ela o meu suor, / Explode o amor, fazendo escarcéu! (...)”.
Descrevendo, por meio de vívidas imagens, os dotes sacrossantos da mulher sertaneja (“rainha da divina natureza”) perante a paisagem que se desenha com o fascinante alvorecer, a magistral toada “Sublime Despertar” (faixa 3) configura uma pérola poético-musical de inestimável valor: “A madrugada abre os olhos na montanha, / A passarada canta alegre no arvoredo, / se molha em luz a camparia que se assanha, / Explode em cada flor um riso de segredo... / E a cabocla, com cheirinho de mulher apaixonada, / abre um riso de carinho contemplando a alvorada...”.
Em “Vozes da Natureza” (faixa 4), o nosso bardo violeiro exalta ciosamente a doce estesia da alma do sertão e preludia a deleitosa dicção da musa-donzela que “tem falar encantado e nem percebe a beleza da voz que a ilumina (...)”.
Embarcando na ferrovia da saudade, o autor viaja pro passado na locomotiva das suas recordações e – assim, em “Maria-fumaça” (5ª faixa do CD) –, sonha com o regresso do trem a vapor que se foi nos trilhos do tempo. Destarte, exorta em lúcida súplica: “(...) volta, / Sob o nosso céu azul: / Voltando, serás benquista, / Da tradição a conquista, / Pois vais atrair turista / Ao belo Mato Grosso do Sul”.
Destacam-se também nesta produção, o cururu “Boiada de Ilusões” (faixa 6), que, metaforicamente, equipara a sorte humana à de uma manada bovina: “Meu destino é uma boiada / caminhando pela estrada / Em direção ao matadouro...” (...); “Dois Rincões” (faixa 7), uma valsa dedicada a Maracaju – terra natal de Gê da Viola – e Campo Grande: cidade que acolheu Geraldo Ramon ainda menino; “Porteira de Vara” (faixa 8), que confere título ao CD, é outra obra-prima – uma composição que mostra o autor envolto em sólidas reminiscências: “Velha porteira é peça tão rara / Feita de varas e dois mourões, / Sendo na entrada aqui da fazenda / Ela é uma agenda em recordações...” (...); “Por te Amar” (faixa 10), cuja letra – glosada em décimas com versos setessílabos – relembra, também pela disposição das rimas e presença de mote, o estilo dos cantadores repentistas nordestinos: “Vive o dia pelo sol / Quando a noite triste morre; / No horizonte o sangue escorre / Dando vida ao arrebol; / Vive o rico pelo escol, / Pobre se vive eu não sei, / Por um trono vive o rei, / O mendigo de guarida.../ Se vives por minha vida, / Por te amar eu morrerei!” (...); e “Meu Monjolo” (faixa 13), que – regravada agora com novos arranjos – já é modelar sucesso de crítica e de público, sendo uma das músicas mais solicitadas nas apresentações artísticas de Gê da Viola.
Temos ainda no CD as faixas intituladas “Morena Pantaneira”, “Ilusão da Saudade”, “Boca no Trombone”, “Catando Guavira” e “Bailando em Maracaju” (esta instrumental), todas igualmente aprazíveis. Enfim, cada música um estilo e um enredo; cada composição, uma surpresa gratificante e um deleite especial.
Vale a pena conferir e conhecer mais de perto as atuações deste que faz da arte musical e da literatura um hobby sério e consistente, pois é professor aposentado da UFMS (Titular de Fisiologia Médica e Biofísica), palestrante, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, autor de sete livros publicados, dois CDs e um DVD.
Parabéns, Geraldo Ramon (Gê da Viola): jogral venturoso, épico trovador, preclaro violeiro-irmão-da-poesia, notável bardo-anfitrião-da-cantoria!
RUBENIO MARCELO
(Secretário-geral da ASL, poeta escritor e crítico de arte)
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(Publicado no Caderno B – MÚSICA, do Jornal Correio do Estado (25/11/2008):
“GÊ DA VIOLA” LANÇA CD DURANTE CHÁ DA ACADEMIA SUL-MATO-GROSSENSE DE LETRAS
Oscar Rosa
Aliança entre a cultura popular e erudita ganha cor local por meio do escritor e músico Geraldo Ramon Pereira, integrante da ASL, que lança hoje, na sede da entidade, o segundo álbum Porteira de vara. Médico/professor universitário aposentado, desde os 14 anos produz textos literários, principalmente poesias, e desde essa idade ingressou no mundo da música, dedicando-se ao violão.Autor de sete livros, anteriormente havia lançado o álbum Cheiro de chão, no qual é autor de sete músicas (letras, melodias e arranjos), já ao som de sua viola caipira e em parceria vocal com Adir Guimarães, conhecido como “Seresteiro”.
Na nova investida musical, Geraldo adotou a alcunha de Gê da Viola, mas continua com a mesma proposta: produzir melodias de fácil assimilação com letras rebuscadas, com clara influência do parnasianismo. “Gosto de fazer poesia em forma de soneto clássico, com dois quartetos e dois tercetos, inspirados em autores como Olavo Bilac, Cruz e Sousa, Raimundo Correia, entre outros”, aponta.
Musicalmente, define o que faz como “música caipira raiz”. “Considero a música sertaneja de hoje outra coisa, tanto na temática como na forma de ser feita. Mesmo adotando o vocal em dupla, o sertanejo está mais para um neologismo da música popular. A minha música homenageia as coisas do campo, da tradição e da natureza. Mesmo assim, também me atenho a aspectos do modernismo. Há uma canção em que chego a metaforizar o computador”, argumenta.
Outra faceta de suas composições é a letra satírica e de crítica social. Esse é o exemplo de “Boca no trombone”, que aponta aspectos da vida nacional: “Que difícil é sabermos/ onde é que tem mais ladrão: /se nas salas dos governos/ ou nas celas da prisão”.
Geraldo diz que não há mudança substancial entre o primeiro e o novo lançamento. “A única coisa que se alterou, a par do amadurecimento musical, é que dessa vez todas as composições são de minha autoria, no outro isso não acontecia”. No total, “Porteira de vara” encerra 15 faixas, que passam pelo pagode de viola, chamamé, toada, valseado, e outros ritmos. “Produzo uma música que traz a preocupação com a maciez do som e com letras com rimas ricas e bem trabalhadas”. Durante a apresentação do CD, ele discorrerá sobre as origens da viola caipira. “São informações didáticas necessárias para as pessoas terem mais conhecimento do assunto”. Como no primeiro, neste novo trabalho Geraldo(Gê da Viola) canta em dueto com Adir Guimarães (Seresteiro).
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(Por Nilton Cruz – CIRANDA DOS ARTISTAS) Revista DESTAQUE
COM O COGNOME “GÊ DA VIOLA”, GERALDO RAMON PEREIRA LANÇA SEU SEGUNDO CD AUTORAL – PORTEIRA DE VARA
Ostentando o sugestivo título Porteira de Vara, o novo CD do nosso “Gê da Viola”, ou Geraldo Ramon, traz 15 músicas, com letras, melodias e arranjos de sua autoria. O instrumento dominante é obviamente sua chorosa “viola caipira”, inseparável parceira de sua eloqüente manifestação poética através da música. O trabalho, com acompanhamento bem dosado de violões, contrabaixo, percussão e algum instrumento de sopro, trescala agradável sonoridade, que leva o ouvinte a ouvi-lo com atenção e recolhimento, voltado para a mensagem das letras bem elaboradas, às vezes com requintes literários. Enfim, a diversificação dos temas e ritmos, que vai desde o “pagode caipira”, passando pela clássica valsa e chegando à polca, xote, marcha e guarânias regionais, além dos folclóricos “toada” e cururu, confere uma seqüência de músicas de estilo não repetitivo, tampouco monótono.
Contando com a participação vocal do parceiro Adir Guimarães (com o qual gravou seu 1º CD “Cheiro de Chão”) e back em algumas faixas, o CD Porteira de Vara, do nosso “Gê da Viola” (Geraldo Ramon) preserva a filosofia de resgatar o que há de bom e bem brasileiro na autêntica música caipira raiz, porém com uma roupagem nova, letras sem erros de vernáculo, sempre buscando evocar a bela tradição.
Assim, o CD é aberto com o pagode “Alô, Tião Carreiro”, uma homenagem ao gênio da viola cabocla, que, inclusive, impressionou e inspirou o nosso singular Almir Sater, seu fã, a dedicar-se a esse divino instrumento. A segunda faixa, “Paixão de Caboclo”, conta cenas de um casal sertanejo, contagiado pela sincera paixão dos que vivem na pureza do interior. “Sublime Despertar” é uma “toada” que descreve poeticamente a mulher do campo, no fascinante alvorecer do meio em que vive. “Vozes da Natureza” é uma alegoria que destaca o timbre vocal da donzela agreste, em meio aos encantos sonoros da natureza. “Maria Fumaça” é um apelo, fundamentado em saudosas recordações, para que se resgate a antiga locomotiva, tocada a lenha, visando o turismo regional. O cururu “Boiada de Ilusões” é uma analogia entre os destinos do homem e de uma boiada tocada para o matadouro... “Dois Rincões” é uma valsa dedicada a Maracaju – terra natal do “Gê da Viola” – e Campo Grande, cidade em que Geraldo Ramon vive desde tenra idade...
Enfim, cada música um estilo e uma história. Deixamos para o leitor saber mais e melhor quando adquirir o CD. Temos certeza de que será gratificante conhecer mais de perto as atuações deste artista que faz da música e da literatura um hobby, pois é professor aposentado da UFMS (Titular de Fisiologia Médica e Biofísica),membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, já escreveu sete livros, participa de programas lítero-musicais em TVs locais (montou um DVD com esses programas), ministra aulas-show em escolas e Universidades, além de ser o atual coordenador, pela ASL, da página “Suplemento Cultural” – publicada aos sábados no Jornal Correio do Estado. Vale a pena conferir!
Cheiro de Chão
Primeiro trabalho em CD da dupla, originariamente Geraldo Ramon & Adir Guimarães (Hoje Gê da Viola e Seresteiro)), “Cheiro de Chão”, gravação independente de 1999, reúne sete composições do “Gê da Viola”, que, além da letra, é o autor da melodia e dos arranjos.O disco abre com a declamação “Vejo em sonho uma boiada, lá bem longe a comitiva, e um berrante repicando a canção mais emotiva!”, seguindo-se-lhe um repicado de toque de berrante feito pelo arquiteto/berranteiro Johny Medeiros. Os sons finais da enorme guampa misturam-se com o solo da viola do Gê, que logo entra a cantar secundado por Seresteiro (Este, costumeiramente, faz a 1ª voz, mas nesta música, assim como em outras, preferem inverter as vozes). A música denomina-se “Meu sertão de antigamente”, que você pode ouvir (e ver os intérpretes) no vídeo homônimo. Aliás, todas as composições do Gê da Viola deste CD entraram na gravação do programa Som do Mato, exibido nacionalmente pela TV Educativa e que foi fragmentado para que você pudesse ver e ouvir, música a música, neste site. Se preferir, há a opção somente com o áudio de cada faixa, assim como há também a exibição da respectiva letra.
Se a primeira música é dedicada a um “sertão” agreste e sossegado, que não existe mais, a segunda é uma homenagem à viola que renasce para a juventude, como alternativa de som inigualável, que nos põe em sintonia com Deus... Chama-se “Viola que canta e chora”. A terceira faixa, “Meu monjolo”, é a quase humanização de uma máquina primitiva de socar ou moer, engolida pelo progresso, junto à qual Gê da Viola cresceu e em cujos “restos mortais” inspirou-se, entre soluços, para manifestar sua gratidão e saudade. É o grande sucesso do autor, gravado por outras duplas e regravado por ele próprio... Gê da Viola ainda ouve as batidas daquele monjolo no pulsar do seu sensível coração!
A quarta faixa, “Apelo moreno” , traduz simplesmente o apego às tradições e costumes da cidade que o acolheu para crescer e viver, Campo Grande/MS – chamada de “cidade morena”, pela cor do seu chão. A letra lamenta a não preservação de alguns marcos inesquecíveis de sua memória, como o relógio da praça, o prédio da prefeitura, a Igreja Matriz e tantos outros... é o efeito do progresso, enfim, necessário. Que fazer!?
“Pagode caipira”, quinta música, é um pagode de viola, ritmo imortalizado por Tião Carreiro, só que empregado para um tema romântico, contrariando a tradição. A 6ª faixa – "Dói demais" – é também a manifestação do apego ao passado da sua querida Cidade Morena, quando esta ainda não tinha asfalto e havia guavirais (gabirobas nativas) onde cantavam quero-queros e seriemas...
Enfim, a sétima música do CD Cheiro de Chão, de autoria do Gê da Viola, é uma autêntica moda de viola (acompanhada só com este instrumento): “Cantoria no céu”. Narra uma “roda de viola” que Jesus promove com cantadores caipiras já falecidos naquela época, formando duplas improvisadas, cujo desfecho é... Ouça a música no áudio ou veja o “vídeo”, você vai gostar, pois é um outro sucesso do nosso Geraldo Ramon Pereira (Gê da Viola).
As seis últimas faixas são composições de autores de renome, como Raul Torres, Tonico e Tinoco, Capitão Furtado, Laureano, Serrinha, Mário Zan, Arlindo Pinto. Vale a pena ouvir e sentir o CD Cheiro de Chão, da dupla Geraldo Ramon e Adir Guimarães, atualmente Gê da Viola e Seresteiro. Confira as músicas também na nossa galeria de vídeos.
(Geraldo Ramon Pereira
comentando sobre Gê da Viola)
DVD Memórias de um Violeiro
"Imagens de Arquivo Pessoal" do Gê da Viola, exibidas em TV ou filmadas em apresentações lítero-musicais, com músicas acústicas ao vivo e/ou declamação e entrevistas tanto em programas culturais de emissoras, como em colégios e universidades (aulas-show). Na maioria das apresentações há a participação do parceiro musical Adir Guimarães (Seresteiro).